quinta-feira, 17 de julho de 2014

Brilhante e escuro céu

Eu não estava minimamente bem. Como desculpa de sempre disse que tinha frio, que estava cansada e que precisava dormir. Lancei o mesmo sorriso de sempre na esperança dele não reparar que algo se passava. Fui deitar-me... Sentia o mundo aos meus ombros e precisava de dormir.
- Beatriz? Estás acordada?
- Sim, agora sim... O que se passa?
- Isso pergunto-te eu. Podemos falar um pouco? Já à bastante tempo que não temos uma conversa saudável, daquelas que todos os casais têm...
Eu conseguia ver nos olhos dele que ele queria mesmo estar ali a falar comigo... Que queria ouvir-me, ver-me sorrir.
- O meu dia foi ótimo e o teu?
- Importaste de não ser assim? Estou a tentar ter uma conversa contigo. Por favor, amor. - Suplicou ele.
- Eu estou a ser normal, simplesmente não estou disposta a acordar a meio da noite para ter uma conversa banal.
- Beatriz, não tem que ser uma conversa banal... O que se passa contigo? Connosco? Prometemos estar juntos para sempre... E viver contigo não quer dizer que estejamos juntos. Estarmos juntos é amar-nos como nos amamos desde o início, lembraste?
- Mas eu amo-te - Respondi baixinho.
- Então porquê essa ausência toda, princesa? O que se passa?
- Eu não sei... - Senti lágrimas pelo meu rosto. Eram completamente incontroláveis e constantes.
- Beatriz! Não chores! - Limpou-me as lágrimas como da primeira vez que me viu chorar. Era o mesmo amor, eu podia sentir que ele sentia o mesmo por mim... Podia sentir que ele estava apaixonado por mim como da primeira vez que estivemos juntos.
- Eu estou cansada. A rotina, as mesmas pessoas todos os dias, chegar a casa, fazer o jantar, arrumar a cozinha, trabalhar nos artigos para o jornal... Estou mesmo cansada. Estou a deixar-me levar pelo cansaço e isso está a prejudicar-nos, desculpa!
- Beatriz, somos um só, percebes? É normal que te sintas cansada meu amor. Mas hey... Eu estou aqui. - Levantou-me a cabeça um bocado e abraçou-me com muita força.
- Eu sei, mas... Às vezes sinto que não estamos aqui... Pelo menos não como deveríamos estar. Deveríamos estar unidos e a rotina só nos está a separar. Tenho medo que te sintas cansado de mim e que me largues de um momento para o outro.
- Eu jamais voltaria a fazer isso. Beatriz, foste a melhor coisa que me aconteceu em toda a minha vida. Olha para nós! Lutamos tanto um pelo outro... Foste estudar, não te vi durante quatro anos e nunca desistimos um do outro. Regressaste, arrumamos as nossas coisas e fizemo-nos ao mundo. Arranjamos casa, casamos.... Eu jamais largaria tudo aquilo que construímos... Está muito em jogo. O meu amor por ti está em jogo.
- Mas e se te cansares de mim?
- Beatriz... As estrelas não brilham todos os dias sobre nós. Mas isso não quer dizer que elas não existam. Haverão momentos melhores que outros, mas eu estarei sempre aqui para ti. Como as estrelas. Lá por elas não aparecerem no céu uma noite, não quer dizer que tenham desaparecido para sempre.
Baixei a cabeça. Eu pensei que o meu amor por ele tinha desaparecido como consequência de toda a nossa rotina... Com as palavras dele, eu senti que estava enganada. Em outras circunstâncias eu teria ficado chateada por me ter enganado, mas naquele momento, senti-me a mulher mais feliz do mundo por ter errado ao pensar que já não existia amor. Quando olhei para ele, os olhos dele brilhavam como da primeira vez que me viu. Como daquela vez em que éramos simples putos à espera um do outro. Nessa mesma noite, não adormecemos mais. Não fizemos muito barulho... Ficamos ali, olhando um para o outro, como dois parvos apaixonados. Eu amava-o e continuava a ser a melhor sensação de toda a minha vida.

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