- Estás a ser tão idiota. Estás sentada numa cadeira e a escrever este texto com as lágrimas escorrendo pela cara fazendo do teclado uma praia.
- Deixa-me. Não percebes que eu já não sou tu? Já não sou aquela pessoa que esperava que os papás viessem buscar a casa da avó e fossem dar um passeio. Já não sou aquela pessoa que os trabalhos de casa eram só pintar desenhos.
- Então, é por isso que choras?
- Não. Eu nem sei bem o motivo. Talvez por não me sentir suficientemente valorizada, talvez por sentir que o meu trabalho não é recompensado de maneira nenhuma.
- De que falas?
- De que falo? Não vês? Estás sempre dentro de mim e não vês que o teu lado criança não consegue sair? Estou presa, Mariana! Estou presa dentro de mim mesma. Todas estas linhas que desenham o meu rosto, dizem-te quem eu sou. E alguém se importa com isso? Não! Está tudo preocupado com as faltas, com os namoros em que o namorado ameaça a rapariga, está tudo preocupado com a sua vida tão individualista que se esquecem de que há alguém que está sempre aqui.
- E porque me dizes isso? Estou dentro de ti, não vou resolver nada. Desabafa com os teus amigos.
- Amigos, sim.. Hm. Parabéns. Fizeste-me rir! Os meus amigos deram férias... Alguns começaram a namorar, outros preferem-me quando precisam de ir à praia porque não tem companhia. Eu não gosto muito de desabafar. Não sei com quem posso contar... Talvez porque esteja cansada... Já não aguento o meu próprio corpo nem o turbilhão de pensamentos que aqui vai.
- Grita!
- Estou gritando, em silêncio. Mas ninguém me ouve. Antes, costumavam ouvir.
- Porquê essa depressão toda agora?
- Há alguém que foge do risco muito facilmente. Que falta, que perde o ano por faltas, que cede a ameaças do namorado, que prefere destruir a sua vida. Há alguém por quem eu me apaixonei perdidamente e estou completamente farta. Podes ajudar-me?
- Eu não ajudo idiotas como tu. Idiotas que preferem deitar-se na cama a chorar. Idiotas que olham para o céu e dizem '' Ok, podes levar-me porque isto já foi demais. ''. Eu não ajudo idiotas que fazem tudo pelos outros. Eu não te ajudo. Lixa-te sozinha!
- Mas Mariana, estamos juntas nisto. Quando eu era criança costumava a ser tão pura, tão genuína.
- Mariana, tu cresceste.
- Estamos a ir ao fundo e não fazes nada!
- Estamos a ir ao fundo porque queres, sua estúpida! Levanta-te dessa cadeira, faz algo de bom para ti, pára com tudo isso! Limpa-me essas lágrimas, sua criança. Cresce mais rápido. O mundo, a tua vida exige isso de ti!
- Estou cansada...
- Estás sempre cansada. O pai têm razão ao dizer que nunca fazes nada de jeito. Só cometes erros e já nem há alguém capaz de arriscar em amar-te. Sabes porquê? És uma estúpida, egocêntrica, uma miss possessiva. Desliga!
- Por favor, pára.
- Parar? Eu paro. Mas só porque estás no estado em que estás. Estúpida. Não vales nada!
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