sexta-feira, 25 de julho de 2014

Depois da vida.

Senti uma enorme paz em mim. Finalmente tinha chegado ao meu destino, era paradisíaco. Subitamente, vi uma cara que não me era estranha.
- Carolina?
- Filipa, és mesmo tu?!
- Oh meu Deus! - abracei-lhe com toda a minha força. - Já não te abraçava desde que...
- Eu sei, eu sei.
- Cresceste imenso! Imaginei que pudéssemos crescer ambas saudáveis lá em baixo! Imaginei que cresceríamos e estaríamos sempre juntas! Cresceste, mas continuas a minha pequenina! - senti-me completa naquele momento.
- Tu também cresceste muito!
Conseguia ver nos olhos dela a felicidade por me estar finalmente a abraçar. Estava vestida de branco, parecia um anjo e continuava linda como da última vez que a abracei.
- Então, cá em cima... Como é que é? - Tentei eu fugir da futilidade das minhas ações.
- Filipa, não comeces a desviar a conversa. Sabes bem que precisamos de falar.
- Sobre quê?
- Tinhas muitas hipóteses de ser uma adolescente completamente normal. Sem ter que depender diretamente da porcaria daquela máquina. Desde quando te tornaste tão egoísta para com os outros e deixaste que eles te perdessem?
- Não é bem assim Carolina. Tu não percebes. Não tiveste que tomar essa decisão.
- Claro que não! Eu tinha três anos, não tinha idade suficiente para tomar decisão nenhuma! Mas agradeço imenso aos pais por me terem dado a oportunidade de pelo menos tentar ter uma vida estável!
- Carolina, mas tu não tiveste uma vida estável. - aumentei o meu tom de voz na tentativa dela perceber o meu ponto de vista - Viveste miseravelmente, ou não te lembras...?
- Não. Não sei do que falas.
- A sério? Deixa-me lembrar-te. Passaste meses no hospital ligada à porcaria de uma máquina, tentando sobreviver todos os dias. Eras tu e a tua vida, numa constante luta. Tudo porquê? Por uma estúpida máquina que te matou!
- Eu lutei. Tu deixaste que a treta da doença te levasse. Nem fizeste um mínimo esforço para continuares com aqueles que te amam.
Nunca pensei que ela tivesse crescido tanto. A última vez que a vi, tinha ela três anos. Uma criança, uma criança inocente. Desde quando se tornou tão adulta?
- Eu não consegui, Carolina. - Senti lágrimas rolarem pelo meu rosto compulsivamente. - Eu não consegui, desculpa. Fui fraca, admito. Não me saías da cabeça! Eu tive medo que pudesse perder a vida e olha... Acabei mesmo por perder!
- Podias ter lutado. Realizado todos os teus sonhos. Podias ter casado com o homem da tua vida! Eu via-te diariamente. Pude observar o quanto ele te fazia feliz e vice-versa. Vocês eram tão felizes! Podiam ter o mundo aos vossos pés.
- Eu estou tão arrependida Carolina!
- Anda, vem comigo.
Segui-a. Descemos várias escadas, pareciam intermináveis! Estava tão cansada... Mas algo me dizia que aquele caminho todo iria valer a pena.
Quando finalmente paramos, pude vê-lo. Dei-lhe um beijo na face e tentei abraçá-lo, mas ele moveu-se.
- Filipa, tu podias estar ali. Vês o desconsolo da alma dele?
- Carolina, por favor... Não me faças arrepender mais.
Ele foi para o seu quarto. Deitou-se e chorou como nunca o tinha visto chorar. Estava tão arrependida. Eu podia estar ali. Podíamos estar a ser os mesmos adolescentes parvos que éramos quando estávamos juntos...
Subi todas as escadas de novo e quando cheguei lá cima só desejei tê-lo comigo. A ele, à minha mãe, à minha irmã.
Desde quando me tornei tão egoísta?

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Brilhante e escuro céu

Eu não estava minimamente bem. Como desculpa de sempre disse que tinha frio, que estava cansada e que precisava dormir. Lancei o mesmo sorriso de sempre na esperança dele não reparar que algo se passava. Fui deitar-me... Sentia o mundo aos meus ombros e precisava de dormir.
- Beatriz? Estás acordada?
- Sim, agora sim... O que se passa?
- Isso pergunto-te eu. Podemos falar um pouco? Já à bastante tempo que não temos uma conversa saudável, daquelas que todos os casais têm...
Eu conseguia ver nos olhos dele que ele queria mesmo estar ali a falar comigo... Que queria ouvir-me, ver-me sorrir.
- O meu dia foi ótimo e o teu?
- Importaste de não ser assim? Estou a tentar ter uma conversa contigo. Por favor, amor. - Suplicou ele.
- Eu estou a ser normal, simplesmente não estou disposta a acordar a meio da noite para ter uma conversa banal.
- Beatriz, não tem que ser uma conversa banal... O que se passa contigo? Connosco? Prometemos estar juntos para sempre... E viver contigo não quer dizer que estejamos juntos. Estarmos juntos é amar-nos como nos amamos desde o início, lembraste?
- Mas eu amo-te - Respondi baixinho.
- Então porquê essa ausência toda, princesa? O que se passa?
- Eu não sei... - Senti lágrimas pelo meu rosto. Eram completamente incontroláveis e constantes.
- Beatriz! Não chores! - Limpou-me as lágrimas como da primeira vez que me viu chorar. Era o mesmo amor, eu podia sentir que ele sentia o mesmo por mim... Podia sentir que ele estava apaixonado por mim como da primeira vez que estivemos juntos.
- Eu estou cansada. A rotina, as mesmas pessoas todos os dias, chegar a casa, fazer o jantar, arrumar a cozinha, trabalhar nos artigos para o jornal... Estou mesmo cansada. Estou a deixar-me levar pelo cansaço e isso está a prejudicar-nos, desculpa!
- Beatriz, somos um só, percebes? É normal que te sintas cansada meu amor. Mas hey... Eu estou aqui. - Levantou-me a cabeça um bocado e abraçou-me com muita força.
- Eu sei, mas... Às vezes sinto que não estamos aqui... Pelo menos não como deveríamos estar. Deveríamos estar unidos e a rotina só nos está a separar. Tenho medo que te sintas cansado de mim e que me largues de um momento para o outro.
- Eu jamais voltaria a fazer isso. Beatriz, foste a melhor coisa que me aconteceu em toda a minha vida. Olha para nós! Lutamos tanto um pelo outro... Foste estudar, não te vi durante quatro anos e nunca desistimos um do outro. Regressaste, arrumamos as nossas coisas e fizemo-nos ao mundo. Arranjamos casa, casamos.... Eu jamais largaria tudo aquilo que construímos... Está muito em jogo. O meu amor por ti está em jogo.
- Mas e se te cansares de mim?
- Beatriz... As estrelas não brilham todos os dias sobre nós. Mas isso não quer dizer que elas não existam. Haverão momentos melhores que outros, mas eu estarei sempre aqui para ti. Como as estrelas. Lá por elas não aparecerem no céu uma noite, não quer dizer que tenham desaparecido para sempre.
Baixei a cabeça. Eu pensei que o meu amor por ele tinha desaparecido como consequência de toda a nossa rotina... Com as palavras dele, eu senti que estava enganada. Em outras circunstâncias eu teria ficado chateada por me ter enganado, mas naquele momento, senti-me a mulher mais feliz do mundo por ter errado ao pensar que já não existia amor. Quando olhei para ele, os olhos dele brilhavam como da primeira vez que me viu. Como daquela vez em que éramos simples putos à espera um do outro. Nessa mesma noite, não adormecemos mais. Não fizemos muito barulho... Ficamos ali, olhando um para o outro, como dois parvos apaixonados. Eu amava-o e continuava a ser a melhor sensação de toda a minha vida.