sábado, 2 de agosto de 2014

Um livro de lembranças.

Era 13 de Julho de 2025. Estava um calor que sufocava tudo e todos! Não sei como é o que o noivo aguentava vestido naquele fato todo aperaltado. Sinceramente, nem sei como se aguentaram mutuamente durante tanto tempo. Quem diria, hm? Faziam de tudo uma crise de ciumes... Não viviam um sem o outro. Quem diria que não se iriam fartar um do outro. A noiva... A noiva estava linda! Finalmente soltou aquele cabelo que estava sempre apanhado. Lembro-me de ela me dizer que apanhava-o sempre nos escoteiros porque dava mais jeito para trabalhar. Usando o termo correto, era mais '' prático ''. Estava tudo muito bonito! Desde a decoração da igreja até à grande festa. Tudo em grande, como ela gostava! Flores, mesas, músicos... Típico de noivas.
Parecia tudo ter o seu par... Sentia-me um castiçal no meio de tantos aqueles que enfeitavam a sala... Mais um não faria mal. Não conhecia nenhum convidado que se sentou na minha mesa. A nossa mesa ficou batizada como '' a mesa dos solteiros ''. Eu nem me importava. Tinha um  trabalho estável, uma casa e um futuro risonho à minha frente. Mas faltava alguém. Havia um lugar que ainda não tinha sido ocupado...
-  Rita? Quem é que se vai sentar aqui? Quem é que está atrasado? - perguntei eu quase já adivinhando a resposta.
- Não te consigo recordar, mas de certeza que estará a chegar. Aproveita! Não será todos os dias que me vou casar...
A mesa estava bem animada. Começamos a socializar todos uns com os outros, senti-me uma adolescente, como já sentia falta! Uns copos aqui, outros acolá e estávamos todos super animados. Lembro-me perfeitamente de lhe ver entrar. Ele não tinha mudado nada! Os mesmos caracóis, o mesmo sorriso, o mesmo adolescente que eu tinha conhecido à onze anos atrás.
Subitamente, levantei-me e disse aos convidados que ia à casa de banho. Demorei imenso tempo! Lembro-me de estar encostada à porta da casa de banho e de contar os minutos a passar. Levei exatamente 32 minutos para tentar arranjar uma desculpa minimamente boa para aquela demora. A verdade é que eu estava a tentar escapar dele. Rezava imenso para que o lugar que estava desocupado não fosse dele.
Não podia continuar ali. Tomei uma boa dose de coragem e retomei à mesa.
- Mariana! Há quanto tempo!?
- Olá... - Disse eu um pouco constrangida.
- Quem diria que seria aqui que nos iríamos encontrar....
- Um pouco óbvio, não? É o casamento do teu melhor amigo, seria um pouco idiota da parte dele se não te convidasse.
- Calma! Não sejas tão defensiva. Aproveita. - disse ele tentando acalmar o meu pequeno coração.  - Como tens andado?
- Bem e tu?
- Também. O que tens feito?
- Seguido a minha rotina. Jornal e casa. Alguns concertos aqui, outros ali... Sabes como é...
- Ah... Sei...
Por fim, sentei-me. Toda aquela conversa patética parecia ter demorado uma eternidade! Que me lembre, deixei de falar durante umas boas horas. Limitei-me a observar. Lembro-me de ficar deslumbrada como da primeira vez que nos vimos. Ele continuava com o mesmo jeito encantador. As suas piadas idiotas irritavam todos mas ninguém resistia e davam todos grandes gargalhadas.
O casamento prosseguiu. Cada um escreveu no livro de lembranças dos noivos, comemos, bebemos imenso! E como não poderia deixar de ser... Dançamos.
Acabei por sentir-me um bocado de parte ali. O meu relógio já dizia que eram 1h20 da manhã. Foi por essa hora que eu decidi ir para casa. Qual não foi o meu espanto de chegar lá fora e estar a chover torrencialmente. Estupidez! Tinha deixado o carro em casa pois morava perto.
Comecei a correr... A chuva batia-me com imensa força na minha cara. Só queria chegar a casa e tomar um bom banho. Comecei a ouvir passos e uma voz familiar a gritar por mim. Olhei para trás e , como nos grandes filmes , era ele.
- Mariana! Eu posso deixar-te em casa. Está a chover imenso... Ainda te constipas....
- Não, obrigada. Eu moro aqui perto...
- Eu insisto. Por favor, larga o orgulho e deixa-me levar-te a casa.
Eu cedi. Afinal, o que podia acontecer? Voltei atrás e entrei no carro dele.
- Bom, eu chegava rápido a casa... - Tentei defender o meu orgulho.
- Eu sei que sim. Mas podias ficar doente.
A viagem demorou uma eternidade, mas quando finalmente chegamos agradeci-lhe e disse que tinha gostado imenso de lhe ter voltado a ver.
- Se quiseres, podes entrar... Também estás molhado. Posso ver se tenho algo que consigas vestir...
- Está bem. Eu não incomodo, juro....
Entramos em minha casa... Sentia-me tão segura ali. Parecia que algo estava disposto a acontecer... Segura e feliz... Era como eu me sentia.
- Eu vou procurar qualquer coisa que possas vestir. Podes vir, ou podes ficar na sala...
- Eu vou contigo, se não te importares... - Disse ele ainda embora um pouco reticente.
- Claro...
Procurei em todas as minhas roupas menos femininas e não encontrei nada..
- Hernâni, desculpa. Sabes como é... Agora no trabalho só roupa formal e deitei tudo o resto para o lixo... Desculpa...
- Não tem problema Mariana. Não te preocupes. Bom, vou andando. Tem uma boa noite.
- Espera! Queres beber qualquer coisa? Podemos conversar um pouco...
- Tens café?
- Sim...
Descemos as escadas e eu dirigi-me à cozinha enquanto ele espreitava a casa.
- Não é grandes coisas, mas é minha. É o meu cantinho! Sabes que eu sempre adorei ter algo que pudesse orgulhar-me de dizer que era meu.
- É excelente para uma só pessoa. Mas deves ter outros planos, não? Não deves ficar aqui durante muito mais tempo. Tenho a certeza que não param de te chegar novas propostas de trabalho no estrangeiro.
- Sim... Eu estou a pensar em mudar-me para Madrid. Não é aquilo que eu idealizei mas olha... É o que surgiu.
- Hm, sim...
- O teu café está pronto...
Sentamo-nos na sala. Conversamos sobre as coisas mais ridículas do mundo! Parecíamos os mesmos adolescentes. Mostrei-lhe que depois de tantos anos, depois da faculdade, depois de ter organizado a minha vida toda, tinha finalmente aprendido a tocar guitarra! Cantámos imenso, como dois idiotas...
Acabamos por nos beijar.
- Hernâni... Por favor. Ambos sabemos que isto está errado. Tens a tua vida, eu tenho a minha e eu não quero nada agora...
- Se estivesse errado, ambos não tínhamos tomado o impulso de nos beijar-mos. Bolas, ambos sabemos que gostamos um do outro. Depois de tanto tempo, encontramo-nos no casamento de dois idiotas que não vivem um sem o outro.
- Isso não significa nada. - Afirmei eu com a cabeça baixa.
- Sabes que mais? Tens razão. Tens a tua vida, o teu jornal. Tens tudo aquilo com que sempre sonhaste. Tem uma boa noite... - Levantou-se e abriu a porta de minha casa.
- Sabes muito bem que depois da faculdade eu sempre sonhei ter a vida que tenho.
- Eu sei, por isso estou a ir embora!
- Estúpido! - gritei eu - Deixa-me acabar de falar! Sabes que eu sempre quis essa vida, mas contigo!
- Foste tu que desististe se bem te lembras.
- Por favor... Por favor, eu sei. Pára de bater no ceguinho!
Ele voltou atrás e beijou-me, como nunca o tinha feito. Era o mesmo amor, estava tudo ali.
- Mariana, eu tentei, juro. Eu tentei seguir em frente. Tive algumas relações no decorrer de todos esses anos, mas era contigo que eu queria estar. Eu sempre quis fazer parte dos teus planos.
- Desculpa. - Disse eu baixinho e com imensas lágrimas a rolarem pelo rosto.
- Por favor, não chores agora. - Passou a mão no meu rosto tentando limpar as lágrimas e deu-me outro beijo. - Deixa-me fazer parte da tua vida... Sabes bem que é raro eu dar o braço a torcer, mas eu estou aqui, pedindo-te que me deixes fazer parte da tua vida. Eu amo-te.
Abracei-lhe com imensa força e ele pegou-me ao colo levando-me para o meu quarto. Nessa mesma noite, fizemos amor.
Este foi o primeiro dos muitos dias da nossa vida. Meu amor, são 9h32 da manhã. Dia 13 de Julho de 2027, dia do nosso casamento. Sentei-me no nosso sofá a escrever isto. Para que todos os dias que nos sentirmos levados pela rotina, lermos isto. Para nos lembrarmos o quanto já passamos. Para nos lembrarmos do quanto nos amamos e de que temos todos dias, um futuro  à nossa frente. Um futuro que pertence aos dois.