Senti uma enorme paz em mim. Finalmente tinha chegado ao meu destino, era paradisíaco. Subitamente, vi uma cara que não me era estranha.
- Carolina?
- Filipa, és mesmo tu?!
- Oh meu Deus! - abracei-lhe com toda a minha força. - Já não te abraçava desde que...
- Eu sei, eu sei.
- Cresceste imenso! Imaginei que pudéssemos crescer ambas saudáveis lá em baixo! Imaginei que cresceríamos e estaríamos sempre juntas! Cresceste, mas continuas a minha pequenina! - senti-me completa naquele momento.
- Tu também cresceste muito!
Conseguia ver nos olhos dela a felicidade por me estar finalmente a abraçar. Estava vestida de branco, parecia um anjo e continuava linda como da última vez que a abracei.
- Então, cá em cima... Como é que é? - Tentei eu fugir da futilidade das minhas ações.
- Filipa, não comeces a desviar a conversa. Sabes bem que precisamos de falar.
- Sobre quê?
- Tinhas muitas hipóteses de ser uma adolescente completamente normal. Sem ter que depender diretamente da porcaria daquela máquina. Desde quando te tornaste tão egoísta para com os outros e deixaste que eles te perdessem?
- Não é bem assim Carolina. Tu não percebes. Não tiveste que tomar essa decisão.
- Claro que não! Eu tinha três anos, não tinha idade suficiente para tomar decisão nenhuma! Mas agradeço imenso aos pais por me terem dado a oportunidade de pelo menos tentar ter uma vida estável!
- Carolina, mas tu não tiveste uma vida estável. - aumentei o meu tom de voz na tentativa dela perceber o meu ponto de vista - Viveste miseravelmente, ou não te lembras...?
- Não. Não sei do que falas.
- A sério? Deixa-me lembrar-te. Passaste meses no hospital ligada à porcaria de uma máquina, tentando sobreviver todos os dias. Eras tu e a tua vida, numa constante luta. Tudo porquê? Por uma estúpida máquina que te matou!
- Eu lutei. Tu deixaste que a treta da doença te levasse. Nem fizeste um mínimo esforço para continuares com aqueles que te amam.
Nunca pensei que ela tivesse crescido tanto. A última vez que a vi, tinha ela três anos. Uma criança, uma criança inocente. Desde quando se tornou tão adulta?
- Eu não consegui, Carolina. - Senti lágrimas rolarem pelo meu rosto compulsivamente. - Eu não consegui, desculpa. Fui fraca, admito. Não me saías da cabeça! Eu tive medo que pudesse perder a vida e olha... Acabei mesmo por perder!
- Podias ter lutado. Realizado todos os teus sonhos. Podias ter casado com o homem da tua vida! Eu via-te diariamente. Pude observar o quanto ele te fazia feliz e vice-versa. Vocês eram tão felizes! Podiam ter o mundo aos vossos pés.
- Eu estou tão arrependida Carolina!
- Anda, vem comigo.
Segui-a. Descemos várias escadas, pareciam intermináveis! Estava tão cansada... Mas algo me dizia que aquele caminho todo iria valer a pena.
Quando finalmente paramos, pude vê-lo. Dei-lhe um beijo na face e tentei abraçá-lo, mas ele moveu-se.
- Filipa, tu podias estar ali. Vês o desconsolo da alma dele?
- Carolina, por favor... Não me faças arrepender mais.
Ele foi para o seu quarto. Deitou-se e chorou como nunca o tinha visto chorar. Estava tão arrependida. Eu podia estar ali. Podíamos estar a ser os mesmos adolescentes parvos que éramos quando estávamos juntos...
Subi todas as escadas de novo e quando cheguei lá cima só desejei tê-lo comigo. A ele, à minha mãe, à minha irmã.
Desde quando me tornei tão egoísta?
Sem comentários:
Enviar um comentário