domingo, 28 de dezembro de 2014

Segundo Nascimento* (Parte I)

Eu quero que saibas que nada disto foi mal intencionado, muito menos mal pensado. Eu não conseguia dormir à noite. Se a minha almofada fala-se, seria a maior testemunha de todas as minhas lágrimas. Eu quero que saibas que nada disto foi feito de cabeça leve porque na verdade, demorei muitos dias a pensar nisto… Eu nunca aguentaria o desgosto dos meus pais. Sempre me viram como a mais bem comportada, a melhor intencionada, a que iria ter melhor futuro… Eu não aguentaria entrar em casa e encará-los diariamente com tremenda angústia. Foi tudo muito bem pensado. Eu revi mais de mil vezes todas as opções que eu poderia tomar mas não encontrei mais nenhuma para além desta, desculpa. Cá de cima consigo ver-vos a sofrer. Consigo ver todas as vossas lágrimas, todos os vossos pensamentos, todos os vossos desejos. Desculpa. Diz-lhes que peço desculpa, se me consegues ouvir.
Estávamos a um mês do Natal. Eu sentia que as minhas forças estavam a esgotar… Eu estava muito feliz, mas ao mesmo tempo desfalecia por dentro… Nunca ninguém percebeu. Fomos caminhando para o Natal… Não deixei que a minha mãe me compra-se muitos presentes… Sempre usei a desculpa de ‘’ os saldos só vêm depois! ‘’… A verdade é que eu nem queria que ela gastasse dinheiro com uma pessoa que estaria morta antes do Natal.  Conhecida como a Senhora Sorrisos, a Senhora Sempre Tudo Bem, nunca deixei transparecer toda a minha dor e continuei (con)vivendo normalmente quer com os meus pais, quer com os meus amigos. Estava tudo bem… Nunca ninguém deu por nada.
Lembro-me perfeitamente daquela noite, foi a noite do meu ‘’ segundo nascimento ‘’. Gosto de usar o termo, faz tudo parecer menos agressivo ou grave. Eu estava deitada na cama, com o computador ligado em cima das minhas pernas, procurando soluções para o meu quebra-cabeças. Eram quase três horas da manhã… Não conseguia dormir e não encontrava nenhuma solução. Ajoelhei-me no chão e olhei para cima com as lágrimas a percorrer todo o meu rosto… Gritei interiormente: ‘’ Por favor, se me estás a ouvir dá-me um sinal! Dá-me um sinal de que isto não vai acontecer! ‘’, e nada acontecia. Não houve um sinal sequer… Fiquei naquela posição por pouco mais de cinco minutos. Abri a porta do meu quarto, se o meu pai ouviu o barulho deve ter pensado ‘’ De novo alguém cá em baixo. Estão de férias e em vez de dormirem, ficam acordadas a noite toda. ‘’. Arrastei de pé todo o meu corpo até à gaveta dos medicamentos na cozinha. A verdade é que tudo o que eu queria era um comprimido para a dor de cabeça, um, dois, três ou quatro. O que eu queria era a porcaria do comprimido, que aquela dor de cabeça desaparecesse e arranjar uma solução para o meu super problema. Foram três. Foram três comprimidos de nome diferente do Brufen ou do Panasorbe. Não era minha intenção, juro. Mas quando caí na cama e me apercebi do que tinha feito, encontrei aquilo que finalmente queria… Encontrei uma paz imensa dentro da minha alma.
Quando voltei a nascer, ri-me imenso. Lembrei-me das várias vezes que jogávamos aqueles jogos online esquisitos em que tínhamos que esperar por energia para podermos jogar de novo. Eu sentia-me rejuvenescida, cheia de energia. Não fazia ideia de que mundo era aquele mas estava disposta a saber.


*Continua…

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