Já vivemos tanto. Começamos a namorar estavas tu no liceu. Andavas sempre com o teu cabelo loiro solto, sempre firme daquilo que querias ser, minha querida. Reclamavas de tudo. Passavas a vida a dizer que querias ser independente, que querias sair do país e começar a viver a tua própria vida com as tuas próprias regras. Quando acabaste o secundário, seguiste o caminho que sempre quiseste. Deste grandes passos naquela faculdade. Cresceste imenso lá... Todos te conheciam pelos teus projetos malucos. Sempre foste a favor da igualdade e da justiça... Cheguei a pensar que querias ser presidente da República. Licenciaste-te e arranjaste emprego. Aquilo que sempre quiseste ser... uma grande médica e salvar muitas vidas... Ironia do destino...
Casamos. Foi o dia mais feliz da minha vida. Ver-te subir ao altar naquele grande vestido que embora seja muito bonito não o consegue ser mais que tu. Dançamos imenso naquela noite... Recordamos todos os nossos passos até aquele momento e planeamos o nosso futuro. A nossa vida começou do zero. Éramos uma linha de comboio que aos poucos se foi construindo. Nesta mesma linha de comboio, que não passa de uma simples metáfora cliché, caminhamos lado a lado...
Quando os putos (como eles dizem hoje em dia) nasceram a nossa casa tornou-se uma festa constante. Uma festa de muitas conquistas diárias, de muitos sorrisos mas também de muitas zangas... '' Mãe, o Afonso fez isto... '' , '' Mentira mãe, foi o Lourenço! ''... E ias tu toda chateada subindo as escadas, tentativa falhada. Derretias-te toda a ver o sorriso deles... Acabavam os três deitados no chão com ataques de risos depois de uma sessão de muitas cócegas. Quando eu subia as escadas tentando perceber o que se passava, os meus olhos brilhavam de orgulho por vos ver os três... E claro, não me podia render aos meus filhos e à mulher mais linda de todo o mundo. Meu amor, eu amava-te tanto! Aliás, eu amo-te, estando tu aqui ou não.
Os putos cresceram, acabaram o liceu e licenciaram-se seguindo caminhos completamente diferentes. O Afonso engenharia civil, o Lourenço em professor de música. Adoravas o facto de ele ter seguido música como futuro... Cantavam imenso juntos e chegaram a dar um concerto no casamento do Afonso. Licenciaram-se, casaram, tiveram filhos... Sempre cuidaste dos teus netos como se fossem os teus primeiros filhos... Dizias tu que era os amores da tua vida e que não lhes trocavas por nada.
O tempo foi passando, meu amor, e com o tempo as rugas foram aparecendo... Os joelhos começaram a ficar mais fracos e o teu coração batendo cada vez mais devagar. Sempre disseste que a tua doença não te iria impedir de viver a tua vida, os teus sonhos e eu orgulho-me tanto de ti. De ti e de toda a nossa vida.
Hoje sou só eu. Os miúdos emigraram e a nossa casa parece-me muito vazia mas ao mesmo tempo completamente recheada de amor. Estou sentado naquela cadeira de baloiçar que comprámos meses antes de teres partido. Tu adoravas sentar-te aqui... Dizias que te fazia bem. Muitas das vezes adormecias aqui, mesmo no meio da sala e toda a família ouvia-te a ressonar por toda a casa. Sempre foste o amor da minha vida, mesmo na tua fase terminal. Mesmo quando te babavas imenso para falar!
Hoje, escrevo-te esta carta porque te quero imenso, porque sinto a tua falta e do teu sorriso encantador que me fez render a ti, minha princesa. Passou 1 ano após a tua morte e eu estou pronto para ir ter contigo. Até já meu amor.
Um beijo,
Eduardo.
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