domingo, 30 de março de 2014

Sonhos de uma idiota

Estava frio. Acabei por me envolver com toda aquela noite escura e com aquele vento que conseguia mexer cada milímetro do meu cabelo. Sentei-me cansada num beco que, pelo que me lembro, não tinha saída. No final de contas, aquele beco significava a minha própria vida... Estava de rastos, cansada e completamente inundada por todas as lágrimas que percorriam o meu rosto. O chão acabou por molhar-se, curiosamente, não da chuva, mas de todas as mágoas e de todas as recordações que eu trazia dentro do meu coração. Já não era aquele coração de quem amou alguém, de quem se apaixonou. Era um simples coração... Com artérias, e milagrosamente, sangue a bombardear por todo o corpo. Será que aquele sangue ainda representava toda a minha esperança? Tudo aquilo que me restava? A verdade é que nem eu sabia. Estava cansada, fraca e só me apetecia adormecer ali mesmo.
Ouvi do outro lado da rua alguém a chamar por mim. Parecia longe, mas acabou por chegar perto de mim, tocar-me e dizer: - '' Rita? '' - abri os olhos, carregados de tanta amargura e subitamente, levantei-me...
- '' Martim... '' - disse eu tão parva, ainda não acreditando que ele estava ali.
- '' A noite está fria. Que fazes aqui neste beco sozinha? '' - perguntou ele como se lhe interessasse alguma coisa.
- '' Eu posso já não ter o direito de te querer para mim, de te amar, de te abraçar... Mas ainda tenho o direito de estar comigo mesma. Só eu... Por favor, respeita isso. ''
- '' Mas eu não te vou deixar sozinha! Não aqui... '' - disse ele com o seu ar indignado.
- '' Bom, a verdade é que também disseste que nunca me irias deixar. Que seríamos nós, sempre. Que construiríamos o nosso futuro, a nossa casa... Que pintaríamos a nossa casa juntos e acabaríamos por adormecer lado a lado ainda cheios de tinta. Tu disseste isso tudo. Disseste também que nunca irias desistir de mim. Que me apoiarias, que me irias suportar mesmo quando eu te chamasse de idiota e te dissesse que nunca fazias nada de jeito... Mas abandonaste-me... E agora vens com esse ar de vítima dizer que não me deixarás sozinha? Fica-te mal! '' - a partir daquele momento, senti-me aliviada. Tinha dito tudo aquilo que o meu pequeno coração sentia... E ele sentou-se... Como se estivesse disposto a ouvir tudo aquilo que eu sentia...
- '' Bom, já que tens tempo... Eu continuo! '' - estava pronta para colocar todas as minhas dúvidas. - '' Foi fácil? Dizeres que me amavas, que nunca me trocarias, que estarias sempre lá para mim? Foi fácil fingires todo aquele papel e depois trocares-me por uma qualquer? Espero que sim, porque eu nunca te quis dificultar a vida de maneira nenhuma! Nunca quis que te sentisses preso a mim, nem que deixasses de sair com quem bem entendias! Eu tentei ser a melhor. Esforcei-me para adequar-me a tudo aquilo que mais gostavas de fazer. E em troca, trocas-me por outra. Até tem piada! Mas a culpa talvez seja minha. Eu esforcei-me tanto que acabei por me esquecer de quem eu era realmente. Mas eu não te coloco as culpas em cima... São minhas. Por ser tão idiota e tão estúpida ao ponto de não perceber que me estava a perder a mim mesma. ''
- '' Rita, desculpa! Fui o maior idiota do mundo! Eu admito isso! E estou tão arrependido... Se eu pudesse voltar atrás e voltar a ter-te comigo... Nas noites mais longas e frias, nos dias mais difíceis de acordar... Rita, eu dar-te-ia o mundo! Por favor, perdoa-me... ''
- '' Estou cansada... Cansada de ser trocada, magoada e posta de parte... ''
- '' Mas tu és o meu mundo... '' - e desatou a chorar.
- '' Eu sou o meu próprio mundo. O mundo que jamais alguém irá compreender... O mundo que ninguém se enquadra... ''
- '' Os puzzles não se fazem com peças iguais... Muito pelo contrário... São as peças diferentes que se encaixam uma nas outras. Nós somos diferentes, mas é isso que nos faz tão especiais... Nós completamo-nos um ao outro! Por favor. dá-me só essa segunda oportunidade. Eu prometo que tentarei ser aquele que tanto mereces... Que tanto desejas e anseias... Só preciso de ti para ser essa pessoa. ''
- '' Martim... '' - levantei a cabeça...
- '' Por favor, Rita. '' , suplicou.
Eu contive-me. Tentei fazer-me de difícil... Queria ver até que ponto ainda era importante para ele... Até que ele levanta-me a cabeça, beija-me e abraça-me... - '' Só preciso de ti para ser melhor... '' - repetiu.
Eu amava-o demais para o deixar escapar. Lembro-me desse dia como se fosse hoje. Foi o segundo melhor dia da minha vida... O primeiro, foi o dia em que ele me trouxe ao colo para o nosso quarto, vestida de noiva.

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